A interação direta com golfinhos selvagens é uma atração turística sedutora, mas que representa uma atividade intensamente modeladora dos comportamentos dos animais envolvidos e potencialmente de risco para golfinhos e humanos.

O turismo de alimentação de botos ocorre no Brasil acerca de 20 anos na região do baixo rio Negro próximo a cidade de Manaus, capital do estado do Amazonas. No Brasil a alimentação de animais selvagens em unidades de conservação é proibida por lei, assim como a molestação de qualquer cetáceo ou sirenio em águas jurisdicionais Brasileiras. Porém, com a crescente ameaça da caça ilegal do boto para pesca da piracatinga, o turismo de alimentação ganhou força como bandeira de conservação.

Atividade de Alimentação de botos no Flutuante Recanto do Boto, Rio Negro, Iranduba, Amazonas. Foto: Mariana Paschoalini Frias
Atividade de Alimentação de botos no Flutuante Recanto do Boto, Rio Negro, Iranduba, Amazonas. Foto: Mariana Paschoalini Frias

A alimentação de botos no baixo rio Negro torna os golfinhos dependentes da alimentação artificial, diminuindo ou até eliminando os comportamentos naturais de forrageamento por presas naturais; aumenta a agressividade entre machos; interfere nos padrões de hierarquia da espécie; dispersa comportamentos mal adaptativos por transmissão cultural e aprendizagem; causa perda precoce da dentição e animais com sobrepeso.

Injúrias constatadas nos botos participantes das atividades de alimentação artificial no flutuante Recanto do Boto. Foto: Mariana Paschoalini Frias
Injúrias constatadas nos botos participantes das atividades de alimentação artificial no flutuante Recanto do Boto. Foto: Mariana Paschoalini Frias

A bandeira levantada para conservação utilizando o turismo de alimentação é pratica e conceitualmente errada. A alimentação de animais selvagens deve ser desencorajada e ações direcionadas a práticas ecoturisticas de observações comportamentais naturais devem prevalecer. Os esforços de pesquisa conjunta entre o Laboratório de Ecologia Comportamental e Bioacústica da Universidade Federal de Juiz de Fora e Instituto de Desenvolvimento Mamirauá captaram pela primeira vez a participação de fêmeas e filhotes nas atividades de alimentação artificial, salientando que este tipo de atividade pode produzir um ciclo comportamental a nível de população local. O novo resultado traz de volta a discussão do modelo de aproveitamento do potencial turístico da espécie na região e põe em pauta a reavaliação desta atividade.

Filhote de Boto durante atividade de alimentação artificial. Foto: Mariana Paschoalini Frias
Filhote de Boto durante atividade de alimentação artificial. Foto: Mariana Paschoalini Frias

Untitled-1Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil

Laboratório de Ecologia Comportamental e Bioacústica

Mariana Paschoalini Frias